A sociedade do espetáculo permanente

Por Fredi Jon

Vivemos um tempo em que a fronteira entre realidade e encenação foi perigosamente dissolvida. A vida, antes vivida em sua complexidade — com silêncio, contradições e amadurecimento — passou a ser reduzida a recortes performáticos, pensados não para existir, mas para aparecer. A lógica é simples e cruel: se não gera engajamento, não importa; se não viraliza, não existe.

Nesse cenário, a moral deixou de ser um eixo orientador e passou a ser um acessório descartável. O que antes causaria vergonha hoje rende seguidores. O que antes exigiria reflexão agora vira “conteúdo”. O absurdo é recompensado, a mentira é monetizada e o risco vira espetáculo. Há pessoas dispostas a colocar a própria vida, dignidade e saúde mental em jogo por alguns segundos de atenção — porque o aplauso digital se tornou a nova forma de pertencimento social.

O problema não está apenas nas plataformas, mas na inversão de valores que elas catalisam. A validação externa passou a ocupar o lugar do caráter; o número de visualizações substituiu a noção de verdade; e o julgamento coletivo, guiado por algoritmos, tomou o lugar da consciência individual. Forma-se assim uma multidão conectada, barulhenta e paradoxalmente vazia, onde todos querem ser vistos, mas poucos sabem quem realmente são.

Há também um custo psicológico e social pouco discutido. A exposição constante gera ansiedade, comparação permanente e uma sensação crônica de inadequação. Vidas editadas criam expectativas irreais. Sofrimento vira entretenimento. Tragédias pessoais são transformadas em série de episódios. A empatia, quando não gera engajamento, é descartada. A ética, quando atrapalha o alcance, é ignorada.

É nesse contraste que algumas reflexões insistem em sobreviver fora das telas. Fredi Jon costuma pensar nessas questões a caminho das serenatas, observando as ruas, as casas silenciosas, as pessoas reais por trás das janelas. Antes de cada apresentação, essas inquietações são divididas com a equipe, não como discurso, mas como preocupação genuína: que tipo de mundo estamos ajudando a construir quando tudo vira espetáculo? Em um tempo de excessos, a Serenata & Cia segue apostando no encontro, no gesto simples, na emoção que não precisa ser filmada para existir.

Estamos diante de uma cultura que confunde liberdade com ausência de limites e autenticidade com excesso de exposição. Mas liberdade sem responsabilidade não emancipa — adoece. Visibilidade sem propósito não constrói identidade — fragmenta. O resultado é uma sociedade que grita, mas não escuta; mostra tudo, mas não aprofunda nada.

Talvez a pergunta central não seja mais “quantas pessoas estão vendo?”, mas “o que estamos nos tornando?”. Porque nenhuma quantidade de curtidas é capaz de preencher o vazio deixado pela perda de sentido, de verdade e de humanidade. E quando a vida vira apenas conteúdo, o risco é que, ao final, não reste ninguém para vivê-la de fato.

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